No princípio, eram dois olhares.
Vagavam por aí, nesse mundão, um à procura do outro.
Quando se encontraram quase que imediatamente reconheceram-se, como todo amor, aliás. E, como todo amor (caprichoso como ele só), os olhares brincaram de se evitar. Em parte pelo charme do jogo, em parte pela tradição do amor, em parte pelo receio de não ser correspondido. Porém, olhares como aqueles não suportam tanto tempo nesse jogo, olhares como aqueles geralmente necessitam-se. Pois bem, os olhares se entregaram. Já não sabiam mais ser sem o outro. Se procuravam em qualquer lugar por onde iam. E, de tanto se admirarem, reconheciam, um no outro, qualquer brilho de alegria, tristeza, ausência; qualquer sentimento, enfim.
E quando os olhares já se tinham, foi a vez das mãos se desejarem. Uma delas, incerta, não sabia muito bem como agir. Por vezes, de tanta insegurança, gesticulava sem parar. Passeava longe da outra procurando desesperadamente uma maneira de se aproximar. A outra tampouco sabia como agir também. Ah, claro, ela não gesticulava tanto como a uma, mas não ansiava menos pelo toque. Suava gelado quase sempre. E o toque aconteceu assim, da maneira mais natural, como todo amor, afinal. A uma nem acreditava que tinha sido tão simples assim, tão natural assim. Foi aí que descobriu que não precisava de tantos planos, tantas mirabolices. A outra era sua, sempre fora. E o toque daquelas mãos, a uma na outra, era, sem a menor sombra de dúvidas, a melhor sensação que ambas haviam experimentado. E (como é de se esperar) a uma não largou da outra nunca mais, e a outra não largou da uma.
E, ao toque das mãos, chegou o momento dos braços. Eles não tiveram que jogar jogo algum como os olhares, ou arquitetar tantos planos como as mãos, apenas se entregaram. E, assim como o toque das mãos, o abraço daqueles pares de braços se deu da maneira mais natural, como todo amor, enfim. Os pares de braços haviam encontrado o melhor abraço. Um par encontrou no outro o repouso ideal. Dentro daquele abraço, o um se sentia protegido, acolhido. O outro encontrou no um uma morada segura. E, como ímãs, aqueles pares de braços jamais cessaram aquele abraço. O um se encaixava no outro, e o outro no um.
E depois do laço dos braços, houve o anseio das bocas. Desejavam-se assiduamente, era praticamente inevitável, como todos os amores, vale lembrar. Aquelas bocas gostavam mesmo de conversar uma com a outra. Uma tinha achado na outra o mais belo sorriso. A outra tinha achado na uma a mais agradável conversa. No entanto, ansiavam por bem mais do que vozes e sorrisos. Aquelas bocas precisavam experimentar os sabores uma da outra. E quando os lábios se tocaram, aquelas bocas conheceram a mais bela poesia. Aquele beijo parecia uma dança, uma conduzia a outra naquele doce ritmo, a outra deixava-se ser conduzida pela uma sem querer parar a música. Diante dessa espetacular sensação, jamais desejaram outras bocas, outras danças, outros beijos. Uma descobriu o mais doce sabor na outra, e a outra a mais bela melodia na uma, e vice-versa.

E, como se pode imaginar, caro leitor, dois corações foram unidos. Não se pode afirmar exatamente em qual momento. Talvez, depois da união dos olhares, ou das mãos, ou dos braços, ou das bocas, ou ainda, talvez, os primeiros a se unirem. No entanto, o que menos importa é o momento em que esses corações se uniram, o mais importante é justamente a união. Aqueles corações não eram metades. Pelo contrário, eram dois inteiros. Sim, eles eram completos. Mas o amor os convidou a se somarem, e, como aventureiros, aqueles corações aceitaram. E quando eles disseram sim, aquele amor virou sagrado, como acontece em todo amor. Dois corações que somaram-se e tornaram-se um só, em dois. Um havia descoberto no outro um lugar para depositar sorrisos, o outro havia descoberto no um o apoio pra caminhar nessa vida, mesmo com as dores que ela nos dá. E de tão sagrado que era aquele amor, os corações, mesmo quando estavam longe, eram um só, em dois. O amor havia ensinado àqueles corações como tocar uma mesma canção, tão deles. Aqueles corações jamais se abandonaram. Um era sagrado para o outro, e o outro era sagrado para o um.