quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Sem Título III

   Tinha um jovem senhor no banco da praça. Tão imerso em seus pensamentos como nunca vi ninguém estar. Seus cabelos brancos traduziam de certa forma tudo aquilo que tinha vivido. Seu olhar denunciava que ali, em sua mente, ele revivia cada momento que lhe tinha acontecido. Por vezes, um sorriso passeava em sua boca, como se uma estação preferida dançasse em sua frente; em outras, seu olhar ficava tão pesado, tão triste, que era difícil não desviar o olhar. Todo ele era vida.  A vida era toda nele.
   E aquela imersão em seu próprio ser trazia àquele jovem senhor de cabelos brancos uma beleza que só quem tem são essas pessoas que - mesmo com toda essa correria da vida que, cada vez mais, faz a gente remar pra longe de nós mesmos - conseguem mergulhar nessa imensidão de sentimentos que somos. Essa beleza que só tem quem consegue sempre estar ciente do tanto de trilho que ainda vai ser preciso caminhar para descobrir um 'eu', que talvez nunca se ache. Essa beleza que só tem quem já passou por poucas e muitas nessa vida, mas que mesmo depois de todos esses invernos, deixou nascerem novas primaveras muito mais floridas.
   Aquele jovem senhor de cabelos brancos era aquele tipo de pessoa que mesmo com o passar dos anos, com o enrugar da pele, com a diminuição da força física, com o tremer das mãos, com o branco dos cabelos, enfim, com todos esses ‘bônus’ físicos que a idade proporciona, conserva aquela beleza da juventude, que fica em algum lugar entre o olhar e o sorriso. Esse encanto que só com a chegada dos cabelos brancos que se descobre que se tem ou se tinha, pois tanta gente perde essa beleza em qualquer esquina, em qualquer decepção, em qualquer inverno... O jovem senhor trazia consigo aquela certeza que, aliás, é muita rara, de que envelhecer talvez não seja tão perigoso assim, tão triste assim. Entre seu olhar e seu sorriso passeava a satisfação de ter passado por tudo nesta vida e ainda conservar aquela alegria sagrada que só os ‘livres’ carregam consigo.
   Em seu olhar, aquele jovem senhor de cabelos brancos, carregava a garantia de que apesar dos pesares, e apesar do quanto são pesados alguns pesares, não há nada mais belo e milagroso do que a vida. Nada, absolutamente nada, é mais sagrado do que essa vontade de viver que, aliás, todo mundo nasce tendo. E que só quem conserva são aqueles que vivem em liberdade. E viver em liberdade não significa só ser livre do ‘outro’; viver em liberdade é algo bem maior, é estar livre de si mesmo, dos seus próprios preconceitos, das suas próprias frustrações. É saber curtir as flores, aprender a ‘dançar na chuva’, apreciar o cair das folhas no outono e sempre desejar novos dias de sol. O jovem senhor de cabelos brancos sabia que cada dia de sol, cada aroma das flores que lhe cruzaram o caminho, cada chuva que lhe molhou a face contribuíram para fazer dele um homem livre, e feliz, afinal.
   Não se pode afirmar se a vida teria trazido mais flores ou chuvas no decorrer das estações daquele jovem senhor de cabelos brancos, realmente, não se pode afirmar. A única certeza que podemos ter é que a vida morava nele, embora os cabelos brancos insistissem em dizer o contrário. 
   Naquele banco da praça havia um jovem senhor de cabelos brancos - livre e feliz, vale ressaltar.

4 limonadas:

  1. Lindo texto.

    Beijo e bom final de semana.

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  2. Maravilhoso texto!
    Que quando eu me tornar uma jovem senhora eu possa me perceber "igual" ao jovem senhor de cabelos brancos no banco da praça.

    Beijos no coração

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  3. Coisa linda esse texto.

    Ah, estou te seguindo também Srtª Polly.
    Não te respondi antes por conta que meu blog estava bloqueado para comentar em outros blogs, não sei o que era.
    Mas adorei seu cantinho, rs
    Sim, te colocarei também nos indicados ta?!
    Beeijo *-*

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  4. Hola, concisas y precisas letras desnudan a golpe de talento la germinal belleza de este blog, si te va la palabra encadenada, la poesía, te espero en el mio,será un placer,es,
    http://ligerodeequipaje1875.blogspot.com/
    gracias, pasa buen día, besos truhanes..

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Azedo ou doce?